Vivendo a intensidade do menosprezo no canto do quarto, soltando-se de si convexa, com a face macia pousada no ombro quebrado, um coração que explode por dentro do peito ao ritmo das lembranças de vidro crepitante. A palma de cal, os olhos de lama fixos na nuca, as unhas; algumas dobradas para cima, outras cravadas no soalho negro. O sorriso pintado nos lábios, róseo-cristalino, puro e eterno.
Eles que não paravam de bailar à frente dela, eles que não paravam de copular à frente dela,ganindo por felicidade, expergindo fluidos de paixão que se lhe colavam às pálpebras. Nem pestanejava. E o sorriso mantivera-se sempre. Mas a carne não parava de se afundar e reaparecer untada em glória, quando logo o cheiro desaguou pelos poros da lascívia. O orgasmo trepou louco pelas paredes daquele quarto, como um animal acabado de sair de um opressivo e violento cativeiro; uivava, fincava as garras em tudo o que era palpável, libertava um muco peganhento, caminhava cego pela liberdade. O quarto ressoou, as paredes abriram fendas profundas e húmidas. Eles por fim pararam.
Vivendo a intensidade do menosprezo no canto do quarto, lavada em lágrimas, e armada com o seu sorriso róseo-cristalino, puro e eterno...
quarta-feira, 11 de março de 2009
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
ensaio sobre o incesto...

Certa noite,no meio do reboliço carnal dos meus pensamentos que,como em todas as noites turvavam o meu sono com grãos de sal luzidio sobre pele em tempestade,ou mo privavam por completo,no desafogo me enroscava naqueles lençóis encardidos como em lume de mulher,envolto em chiadeira,à beira,mesmo quase e pela primeira vez,de afugentar por uma noite só o tormento,o vácuo da libido.Eis que minha mãe,abrindo a porta indignada com as molas do meu colchão,rasgando o silêncio com guinchos de loucura,despe o seu vestido de noite azul...aquele aroma temperado a meia-higiene apoderou-se do meu quarto e de mim.O vestido de noite com toque de seda,atirado para cima das minhas vergonhas.
-Vê se te acalmas.
Este guincho em particular soube-me a mel.
Deitou-se a meu lado.A sua carne tocou a minha.Os seus pêlos acariciavam os meus membros incompletos.E na escuridão...senti com alegria,florescer no seu vestido de noite azul uma pequena mancha mais escura.
A minha primeira vez.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Dúvida...

Ela parada bem à minha frente,nua.Confiante na minha incerteza.Eu caminhando com os meus olhos abertos,derrotados a varrer cada passo,a perscrutar o chão apático que me suportava por capricho,que não sedia sob o tremule pisar dos meus pés de areia fina com a fundamentada confiança que o faria sozinho,algures,não hoje.No tempo que não hoje porque hoje era todo hesitação.Uma nuvem negra arrastando-se pesadamente sobre um qualquer vilarejo perdido no mapa.Ansiosa por desabar dramaticamente sobre o mar,desejosa por não molhar uma alma só.Uma só era demais.
Sempre podia descolar os meus olhos desse chão,deixando as lágrimas suspensas na dúvida do destino,privando-as por um instante das trevas do alcatrão de mel que me beijava os pés com acidez,e encara-la,olhos nos olhos e degustar-me com a placidez verde esmeralda que faria eco no meu olhar de sal.Ela rindo-se para mim enquanto pairava quieta com as pontas delicadas dos pés acariciando o pavimento.Poderia olhar para ela sim,mas aí saberia qual o caminho.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
menless...
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
água suja...que foste fazer?

Um pé depois de um outro,uma mão alinhada e uma cabeça.Tudo no sítio na minha,e as lágrimas de prata afundam-se na corrente escarlate,outrora paixão.As mãos manchadas,a água de um cetim vermelho sinuoso flui para a escuridão e a expiação que não chega.De frente ao espelho com a cara voltada.O peito marcado pela palma manchada.Nada voltará atrás.Sou unicamente responsável por mandar o fardo ao rio,em sacos pretos atados num suspiro.Muito tremulo o meu peito.Inquieto.Algo se constrói aquando o frio do metal percebe a paixão da tua carne.Quando,olhos nos olhos o terror me beija e eu sorrio controlando a tempestade interior.Abraço o tom purpura num beijo pingado,perspectiva singular,e aquando me inclino para te sussurrar,o teu belo perfil,o saco,o preto imiscuí-se e entra-me pelos poros,corrompendo a minha alma resoluta.O caminho,o meu peito e o rio que te afasta de mim...
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
negada a permissão para entrar...

Desculpa,é demasiado para mim,se ao menos me explicasses este frenesim mudo,e tu que não sais desse canto,sombrio,que me repudia cada vez que me aproximo,que te tento tocar.Já não te distingo da escuridão,e tu?distingues-te?abraça-la com essa paixão doentia e eu abraço-a também encostada ao outro canto,sem alternativa,derrotada,e com uma terrível perspectiva,qual é a tua?que vês quando olhas para mim?vês a serpente sibilante,negra,que me agitas em jeito de convite?e nem tentas sacudi-la,porquê?já não tenho mais lágrimas que possam encher a tua alma com frescura,secaste a minha fonte.agora não quero viver,não contigo,não sem ti.ouço a inércia crepitar e os gritos orgânicos em surdina.Pergunto-me,o que és?pele a ondular ao sabor da insegurança,o que cresce dentro de ti?és tu que ainda aí moras?o que te passa pela cabeça aquando prostro a minha vulnerabilidade diante de ti?de braços abertos para o céu.nada?e assim o teu vazio transforma-se no meu,para sempre...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Loaded gun...

Sempre?
Quase...
E o que acontece quando está descarregada?
Respiro fundo e a complexidade retorna aos eixos.A volúpia afunda-se na vertigem intermitente da normalidade sempre finda.
Sempre... Não é sufocante?Digo...constantemente a arfar por um alvo em movimento?Com os beiços irrigados e titubeantes da besta a babarem lânguidas gotas de um muco que ensinará caminho para outros como tu?Oh Deus,uma visão dantesca tenho de ti,como aquando do primeiro vislumbre que o lobo permitiu ao Capuchinho,estou certa.
Há mais em mim que animal,há o coração negro de um homem.
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