terça-feira, 5 de agosto de 2008

a rapariga que me constatou o outono...


E enquanto eu estava sentado no meu sofá vermelho no meio da relva,bem longe de todas as árvores e de tudo que fosse qualquer coisa,vejo uma rapariga a vir bem na minha direcção,pronta a dizer-me o que quer que me quisesse dizer.
Trazia,preso por uma corrente,um grande porco cinzento,majestoso e altivo,tanto que por momentos não percebi quem conduzia quem.
Ela vestia uma túnica branca com uma renda confusa e uma gargantilha negra com vários e cristalinos diamantes em falta.O seu sapato de verniz,grotescamente tortuoso,sondava,desnecessariamente,a terra por onde passava.A própria túnica parecia querer abandona-la,desfalecendo dramaticamente e permitindo que o ar lhe beijasse um seio,que por isso mesmo se mostrava hirto.
Parou a meio do caminho.Tirou da malinha de mão um baton que espremeu cinicamente de encontro aos seus lábios finos.Continuou.
Quando me pareceu que olhava para além de mim e iria passar sem nada me dizer,Parou.
O porco colocou-se de perfil,afilou-se como os cães de caça,propositadamente para a pose.
Ela olhava-me agora no fundo dos meus olhos.
O seu rosto entrara numa terna maresia de comoção.
-O porco aqui és tu.-Disse-me.
O seu animal olha-me com desprezo.
Uma lágrima azul cai-lhe do rosto e perde-se na finitude do meu olhar.
Olho para o chão e tento encontrar,pelo menos sorver alguma da substância daquela lágrima.
Olho de novo e já lá não está,nem ela nem a lágrima.
Respondo-lhe:
-Pois sou,pois sou.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

coabitação...

e como vejo que os dois juntos não se dão
numa vibração alusiva a todos os cabos que não se interligam
e perco-me no meio deles
como sua a minha parte insípida,na ânsia de conter a pérola da ostra
é desconfortável

acho que ela se enoja com o meu saco de carne demasiado ridículo e apegado
mas não tem a certeza da vida eterna
como todos os sacos de carne,também ela se conforma

sexta-feira, 11 de julho de 2008

relativizando contextualmente a importância dos entes superiores...


para a minha ténia de estimação
eu sou uma divindade
alimento o seu coração
de merda e trivialidade

embriagada com a percepção
de livre-arbitrariedade
não farei qualquer concessão
em lhe cagar a verdade

terça-feira, 10 de junho de 2008

contagem permanente...


tantas pessoas no mundo
uma acabou por morrer
e outra e outra e outra e outra
e eu continuo feliz
não me podes culpar por eu continuar a sorrir

não te posso culpar por continuares a matar
tantas pessoas no mundo
o dominó aproxima-se
se queres saber não quero saber

tantas pessoas no mundo
e que diferença faz?
e outra e outra e outra
todas sublinhando o seu sentido

quero sublinhar o meu sentido
qual sentido?
que diferença faz?

quinta-feira, 5 de junho de 2008

penthouse corpse...


O complexo aroma contrastava com a sofisticação simplista do imobiliário e arquitetura do local.Os metais e os granitos caros com o calor interior comum a qualquer ser humano,tornando o bafo visível e denso,mesmo no pico do verão.
No sofá de couro vermelho lá estava prostrado um corpo.Cabelo loiro,olhos fechados,sereno.A casa,essa por sinal mostrava tudo menos indícios de serenidade,nos últimos dias que correram.Confetis,garrafas de champanhe e roupa interior tal como cinzeiros a transbordar e notas enroladas por todo o lado.
A casa como prolongamento do ser,estava fria,mas sobreviveria.

terça-feira, 27 de maio de 2008

mestiçagem de essências...

Faz uma incisão.Procura uma conexão.Alimenta-te do meu coração.Alimenta também a sensação...Ordena os sentidos...Sorve os sonhos perdidos.Vasculha-me bem.Perfura-me o cérebro também.Sente o sangue quente a escorrer.Revira os olhos de prazer.Corta a jugular.Vê os fluidos a misturar.Começa a contar...a complexidade a prosperar...Sustém a respiração.Anda comigo de mão dada nesta solidão.

domingo, 27 de abril de 2008

constante abstração...

Vejo em ti que não te conheço
Uma ondulante sensação de desconexão
Vejo em ti que não te conheço
Clara mentira

Desprezo-te?
Clara mentira
A verdade é tão somente um mar de abstrações que perpetua após a constatação da mentira